Perdidos na Intempérie

De Tropa a Tropa

 

Primeiro, fico muito feliz em ver o sucesso de um filme brasileiro nas salas-de-cinema obtido pelo mérito próprio de captar o apreço do público e penetração na mídia e estratégias de distribuição. Lançamento em grande escala, expectativa e filas. Sim, centenas de metros em alguns lugares. Pessoas contando os dias para o lançamento previsto para 08 de Outubro. Não parecia o lançamento de um título nacional, mas era. O filme de José Padilha conseguiu algo que só lembro ter visto aqui em blockbusters hollywoodianos. E veja que, ainda assim, eram a minoria. Minha memória desses super eventos é mais forte na infância e era comum em diretores como Spilberg, George Lucas ou mesmo Cameron. Sobre esse último, lembro de enormes filas em 1998 para o lançamento de Titanic, mas de filas menores para AVATAR… ainda que os números desmintam minha memória. O crescimento das salas de cinema em shoppings pulverizou as filas – o que torna ainda mais forte o fenômeno visto nesse mês de Outubro. Anteontem, aqui em Brasilia, esgotaram-se antecipadamente três sessões de “Tropa de Elite 2”. Hoje, fui ver o filme em um cinema menos conhecido na cidade. E peguei uma boa fila. Isso pode ter vários significados e possivelmente podemos acabar supervalorizando o filme por isso. Mas sempre achei que um dique ao cinema nacional era própria chancela de nacional. Hoje, aos 26 anos, vi um filme feito e produzido aqui derrubar todos os concorrentes e ter um tratamento de super lançamento. Aos 26 anos foi a primeira vez que vi isso ocorrer. Isso não faz do filme necessariamente “bom”. Não me convenço com a máxima do liberalismo econômico em que qualidade se converte em vendas. Mas é um sinal importante para uma atividade artística que sonha há 80 anos com o estabelecimento de uma indústria capaz de sustentar-se com os ganhos em bilheterias. Como disse, esse pode ser um sinal precoce… mas é sempre bom sonhar e torcer para que “TROPA DE ELITE 2” seja o primeiro de muitos e não uma exceção de vários.

O chamado “cinema de retomada”, termo que me incomoda bastante, bem que poderia entrar numa nova e inédita fase. A fase do cinema sustentável. Que possa gerar recursos fixos e regulares aos seus realizadores,  estimulando o estabelecimento de um mercado estável. É só torcida. Mas vale a pena compartilharmos ela. Ainda que não haja precedentes realmente estáveis, o cinema das décadas seguintes poderia naturalizar filas para o cinema nacional.
Sobre o filme. É absolutamente diferente do primeiro. Muda muito. Tanto em conteúdo quanto na linguagem. Esqueçam frases de impacto e bordões que tanto fizeram sucesso no original. Esqueçam grandes cenas onde a violência é tratada com uma naturalidade até sarcástica… isso não existe mais. A violência aqui também é comum, corriqueira em quase duas horas de projeção, mas não é mais natural. O sangue que escorre no segundo título da série não é aceito, pelo contrário, é uma questão a ser enfrentada. Não se trata de quantidade de violência, mas da simbologia e do papel dela nessa trama do diretor José Padilha. Ainda que a temática seja a mesma, a violência urbana no Brasil e sobretudo no Rio de Janeiro, o objeto é outro. O filme, inclusive, poderia não mais se chamar TROPA DE ELITE. Esse título fazia sentido no original, onde a trama contava a história de um destacamento especial da policia militar que, apesar de um contingente muito reduzido, é melhor remunerada e equipada que os policiais convencionais e, por isso, ostenta a fama do destacamento incorruptível da policia militar do Rio de Janeiro (e também a má fama, e por vezes justa, de um verdadeiro esquadrão da morte ou de extermino). Esse segundo filme trata de outros temas, e o BOPE é assunto secundário. O título se justifica por ser uma seqüência cinematográfica… e sim, julgo ser muito importante ver o primeiro filme antes para compreender muito do que é dito no segundo. É o segundo filme dessa série. Mas não é o segundo filme sobre a Tropa de Elite da policia militar do Rio de Janeiro.
Muito do charme do primeiro filme está em lidar com a questão da violência urbana com um olhar microscópico. Em 2007, José Padilha apresenta um sistema simples, triangular e bastante incomodo da violência. Incomodo porque mostra a participação da sociedade civil na contribuição de um tema tão caro. Trata de episódios particulares que podem facilmente serem generalizados. As universidades que se tornam pontos de vendas de droga, a vilanização da policia pelos membros da classe-média, o sustento da violência através do consumo de drogas da própria classe média, a hipocrisia em querer uma pacificação sem violência. No primeiro, José Padilha mostra como somos parte do problema – de forma atuante ou não. Essa denúncia, essa forma de apontar o dedo de “culpado” para o próprio expectante do cinema foi algo impressionante no primeiro TROPA DE ELITE. Saímos do primeiro filme com a certeza que somos nós os maiores culpados. Para chegar a esse resultado, constrói a figura do capitão Roberto Nascimento (Wagner Moura), um personagem riquíssimo em nuances e complexidades. Curioso que no argumento original do primeiro longa, o capitão Nascimento deveria ser um personagem com menor importância. A história deveria ser focada na amizade de dois colegas de infância que sonham em ser policiais honestos e a figura de Nascimento deveria ter a presença de um guru antiherói. As filmagens começam, o material começa a chegar na ilha de edição e o personagem de Nascimento começa a crescer no filme. A experiência de documentarista que Padilha acumulou por mais de uma década deve tê-lo permitido perceber possibilidades além daquelas que estavam previstas no roteiro. Soube adaptar as boas atuações que estava tendo de Moura e redesenhou o roteiro enquanto esse estava sendo feito. O resultado foi um filme com um material bruto gigantesco. Por exemplo, Juliano Cazarré, ator brasiliense que também fez parte da série para TV FORÇA TAREFA, aparece pouco no filme. No corte final, sua participação fica entre um personagem coadjuvante e um figurante. Mas, ao ser questionado sobre isso em entrevista, disse que participou de mais de 20 diárias de filmagem e que possuía várias falas e construção de personagem… reflexo de um filme que mudou muito durante sua realização. Capitão Nascimento e seus famosos bordões que ficaram famosos em 2007 virou protagonista ao longo das filmagens. O personagem, capitão do BOPE, é um homem extremamente pragmático. Um pragmatismo quase patológico. E é essa característica que vai levá-lo a conquistar fãs e criticas nos espectadores de TROPA 1. O mundo apresentado no primeiro filme é tal qual o capitão Nascimento vê. Um mundo com um problema simples e cuja a solução é simples, ainda que de difícil execução. “Se há policiais corruptos, elimine-os” diria Nascimento. A forma como o crime organizado é apresentado também é simples e simplória. É a visão de Nascimento. Ele faz filosofias sobre o tema (em uma narração em off) e identifica onde está o problema, quem finanacia o problema e quem deveria mas não resolve o problema. Suas frases são rasgantes pois denunciam hipocrisias e ignoram complexidades. Por fim, seus métodos são questionáveis mas eficientes. Padilha leva o espectador a uma viagem parecida com o desfecho de Dogville (2003, Lars von Trier), onde somos conduzidos plano -a-plano, sem perceber, a concordar com entusiasmo com ações de limpeza urbana através da bala e da violência. Dura algum tempo, nem que sejam poucos minutos, mas saímos admirando a intolerância do Capitão Nascimento com bandidos, usuários de drogas e policiais corruptos… o efeito catárgico nos leva ao constrangimento de perceber, recuperado a nossa sanidade, que estávamos concordando com uma chacina “em nome da paz”. Que na ansiedade de resolver o problema, concordamos em simplificá-lo. Foi constrangedor para muitos espectadores, incluindo-me neles, perceber que por alguns minutos fomos favoráveis a grupos de extermínios. A sanidade volta, passamos a relativizar o capitão Nascimento (é exatamente o que ele não faz)… e ainda constrangidos, dizemos em jornais e criticas especializadas que o filme é apologia a uma postura fascista ou que o personagem do Capitão Nascimento assim o é. Estávamos, na verdade, constrangidos com nossas contradições quanto a questão da segurança pública que esse personagem tão majestosamente nos falou. O cinema brasileiro tinha ganhado um dos mais perfeitos anti-heróis em quase um século.
A história original do primeiro ocorre em 1997. Treze anos depois, o segundo filme reencontra o capitão Nascimento… agora coronel Nascimento. No bonde dos comentários feitos em relação ao primeiro filme, o Cel. Nascimento tem uma fama dúbia. Chamado de fascista por uns e heróis por outros. Sua forma simplista de ver o mundo, aparentemente defendida no primeiro longa, ainda o acompanha. E é justamente isso que vai trai-lo. Daí a importância de assistir o primeiro filme antes. Nessa segunda parte, Nascimento se trai. Percebe que a fórmula que tanto defendeu para o combate ao crime organizado com mais policiais, melhores equipamentos e tolerância zero não soluciona o problema. Em vez disso, cria outros. Percebe que quem pode estar consumindo maconha pode não ser um “playboyzinho da zona sul” mas seu filho. Descobre que as ações policiais, positivas ou não, podem ter uso eleitoral. Cego por boa parte do filme, achando que o crescimento do BOPE era a solução para o Rio de Janeiro, “Tropa de Elite 2” vai numa contra-mão interessante do primeiro filme. Propõe uma visão macroscópica da questão, envolvendo a política eleitoreira, milicias, corrupção e o uso de boas ações da segurança nacional. No primeiro filme, espectadores são seduzidos pela visão de Nascimento de que a questão é simples e que falta é coragem de “colocar o dedo no gatilho”. No segundo, ele descobre aquilo que sabíamos antes de ver o primeiro: é bem mais complexo. O personagem de Nascimento não cresce em auto-estima ao longo desse filme, pelo contrário, diminui. Percebe que se equivocou várias vezes. E por fim, emocionado, diz numa plenária algo que jamais pensaríamos que sairia da boca de Nascimento: “a policia militar do Rio de Janeiro é uma instituição que deveria ser extinta”… aplaudido por aqueles que chamava de vagabundos 13 anos antes, e que agora estão na galeria.
Assim, o segundo filme redime o primeiro de suas críticas. O personagem anti-herói, ainda bastante violento, descobre que seu excessivo pragmatismo o deixou cego. E que não sabe mais dizer porque matava pessoas em nome da paz. O filme ganha bastante em complexidade e aponta o dedo da culpa, agora, para classe política brasileira. Mais rico que o primeiro longa em muitos aspectos, o filme perde justamente naquilo que havia de especial no primeiro e que está ausente nesse. Em 2007, o mundo era simples e as pessoas que eram complexas e hipócritas. Não apenas o anti-herói Nascimento, mas personagens como Maria, Matias, Baiano, Fábio, instituições como Policia e a ONG… todos cheios de motivações positivas e práticas questionáveis. Matias (personagem de André Ramiro) deveria ser o protagonista do primeiro filme se não fosse o crescimento de Nascimento na trama. Em Tropa de Elite 1, ele faz uma viagem bem ao estilo Micheal Corleone em Poderoso Chefão (Francis Ford Copola, 1972), perdendo a inocência de querer resolver a questão da violência no diálogo. No segundo filme, o mundo se torna mais complexo. Os momentos de diálogo são importantes para solução do problema da segurança. Mas os personagem aqui são rasos. Não lembram em nada a complexidade do primeiro filme. Talvez porque essa continuação foque mais em Nascimento, agora protagonista desde o roteiro original, sobre menos tempo para construção de outros nomes que poderiam ter peso no filme. Assim, TROPA DE ELITE 2 mostra vilões bem violões. E mocinhos bem mocinhos. A exceção, além de Nascimento, é o professor universitário, ativista de direitos humanos e aspirante a deputado, Diego Fraga. Único personagem que, além de Nascimento, recebeu um tratamento mais complexo e também fez sua viagem na descoberta da questão. E, para surpresa dos fãs de Nascimento, provou estar mais certo que o capitão na descoberta do problema.
O filme também tem um mérito de fazer uma trama que lembra os melhores momentos de Alfred Hitchcock. A medida que a projeção avança percebemos que o protagonista está envolvido numa trama sem saída. Ficamos ansiosos por ele, e assistimos seu cerco se fechar plano-a-plano. É quase um filme de suspense. Não há solução. Por fim, Padilha resolve terminar o filme antes do assassinato do protagonista, mas que por várias razões se mostra como inevitável e breve.  É uma forma de dar algum sinal de final feliz em um filme de final triste. Manter o personagem marcado para morrer vivo, dando-lhe mais tempo para verbalizar seus manifestos. Um pouco irreal, na verdade. Mas foi bom ver, ao menos na ficção feita por Padilha, políticos indo parar na cadeia e outros apanhando em lugares públicos de policiais honestos*. Menos realista que o primeiro longa nesse aspecto, mas suprimiu os desejos dos espectadores. No fim, Nascimento vence sua batalha (ainda que não vença a guerra). Mas sabemos que ele é cabra marcado para morrer e que não vai durar muito. O filme poderia ter sugerido isso de forma mais incisiva. O caminho da morte de Nascimento pós filme é iminente. Nitidamente, José Padilha quis poupar o filme de uma visão pouco otimista e quis incentivar aqueles que se expõem para resolver o problema! Importante mostrar uma testemunha viva e falante. Foi uma decisão política, talvez acertada. Traiu um pouco filme, mas talvez tenha se prestado mais a causa.
Pessoalmente, ainda que ache essa continuação mais rica em quase todos os aspectos, acho menos proveitosa sua visão macroscópica. No fim do filme, uma tomada aérea em Brasília quase que redime os cidadãos das ruas do Rio de Janeiro, e de outras cidades que vivem sob o auspício da violência, de suas fraquezas. O conceito final do filme acaba transferindo a culpa e a responsabilidade da questão aos homens de terno de Brasília. Agora, para usar o termo de Nascimento, “playboy da zona sul” e seus pais podem dormir em paz. Em 2007 ficaram muito incomodados ao verem que são o motor que faz isso tudo girar. Em 2010, puderam transferir essa culpa e podem continuar a agir como sempre fizeram pois a questão é mais complexa e o culpado de verdade está a 1200km sentado em alguma cadeira confortável no planalto central. Não! Essa é minha maior critica ao filme e por isso que faço propaganda para que o primeiro filme seja visto antes. Acredito que Padilha não prefira uma visão a outra. As duas se completam. Por isso, ver ambos os filmes é importante.
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outubro 15, 2010 - Posted by | Corujas (Gabriel F. Marinho)

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