Perdidos na Intempérie

“No Creo en los modales ni tampoco en diccionarios”: Calle 13 e a Indústria Cultural

 

 

“Yo sé que a ti te gusta el pop-rock latino, pero es que el reggaeton se te mete por los intestinos, por debajo de la falda como un submarino y te saca lo de indio taino (…) ” (Atrevete-te-te)

Devo dizer simplesmente que gosto. Alguns podem considerá-lo um gosto duvidoso, mas Calle 13 me provoca aquele risinho irônico ao canto da boca. Eles vendem, ganham prêmios e aparecem em todas as mídias, e com aquelas letras?!

René Pérez (o Residente) e Eduardo Cabra Martínez (o Visitante) fazem uma música muito apreciada e depreciada também, o Reggeatón, adaptando-o com diversos outros ritmos latinos e misturando letras em espanhol e inglês. Este estilo nasce de um intercâmbio cultural entre Panamá, Porto Rico e República Dominicana, e, até pouco tempo, era proibido por suas letras que incitavam a violência e apelavam ao sexual. Era o gênero clandestino.

Hoje, o proibido foi apropriado pelo capitalismo e é muito popular entre os jovens da América Latina, Europa e Estados Unidos, circulando livremente debaixo dos olhos de sua moralidade.

Todos nós sabemos que o campo da arte também é uma relação social pautada pela alienação. E a alienação marginalizou o artista que se sujeita ao mercado, diminuiu a relevância crítica de suas temáticas e impediu a participação do público na criação, tornando-o passivo e capaz de aprovar apenas pelo dinheiro. Ou seja, a arte distanciou-se da realidade, tornando-se uma necessidade de segunda ordem e especializada.

Mas Calle 13 rompe o silencio e faz fortes críticas à indústria da música. Porque, para a dupla, a cultura não é abstrata e está ligada ao econômico e ao político, nos encaminhando a interpretação da arte como parte das atividades da vida, como parte de uma totalidade.

Assim, criticam a indústria que vende música, os cantores que se corrompem a uma produção acrítica e se olvidam de seu próprio mundo, a imposição de um determinado estilo musical, e por aí a dupla segue…

“Estas vendiendo discos (…) Y tienes a un manejador robándote el 20% de toda tu carrera (…) Tu eres un producto enlatado encima de un anaquel. Antes cantaba rap y ahora eres pop como Luis Miguel (…) Es muy fácil ser esclavo de la industria navegando a favor de la marea. Tú te vendiste más barato que una prostituta en autopista. Esa es la diferencia entre un negociante y un artista (…) No se trata de ganarse premios, ni de vender discos, ni de carros, mujeres, hoteles, ni que se te comiste 30 mariscos. (…) Yo estoy dispuesto a dar un mensaje aunque me maten a patadas.” (Que Lloren)

Ao explicitarem a posição de cantores que se esquecem de onde vieram e produzem acriticamente, afirmam que são pobres que se aburguesam e negros que se tornam brancos: “Tú te criaste en el barrio ¿Ya se te olvido? Desde que son raperitos, se vuelven blanquitos, se sacan los mosquitos con pañuelitos. Sin embargo, yo me voy con el pueblo, con los que se joden pa’ ganarse un sueldo”. (Vamo Animal)

Retificam a padronização da cultura, nivelando-a por baixo, com o objetivo de fazer e ganhar dinheiro: “Muchos discos en la tienda. Mucha, mucha mierda” (Cabe-c-o)

E ainda apontam a moralidade burguesa que encontra na cultura popular um mau gosto: “Ya me puse vulgar de mal gusto, muy gráfico, sucio pornográfico. (…) Y plash la disquería molesta porque ya este tema no lo pueden sonar en la puta radio. No importa la canto en el estadio.” (Bienvenidos a mi mundo)

Com três CDs – “Calle 13” (2005), “Residente o Visitante” (2007) e “Los de atrás vienen conmigo” (2009) – trazem para dentro da produção cultural sua crítica à ela mesma e quiçá a si mesmos. E levam ainda outros temas que mereceriam um texto à parte, tornando sua música um projeto político de transformação.

Cantam a exploração histórica dos “gringos” ao território caribenho, a imigração latina nos Estados Unidos, e nossa pobreza. Cantam a Revolução e as experiências de luta, os indígenas e a exploração ao povo, nossa identidade e a luta para mantê-la.

Em “Los de atrás vienen conmigo”, dizem: “Yo vengo de atrás, yo vengo de abajo. Tengo las uñas sucias, porque yo trabajo. Me he pasado la vida mezclando cemento para mantener a los gringos contentos. Tú no sabes todo lo que yo cosecho para dormir debajo de un techo. Pero yo no soy blandito, yo no me quito, tampoco me criaron con leche de polvito. Soy la mezcla de todas las razas: batata, yuca, plátano, yautía y calabaza.”

E ao descrever a diferença entre o povo e as autoridades, entre que nos governa Calle 13 não poupa argumentos: “Aprendí que mi pueblo todavía reza porque las fucking autoridades y la puta realeza, todavía se mueven por debajo de la mesa. Aprendí a tragar la depresión con cerveza. Mis patronos yo lo escupo desde las montañas y con mi propia saliva enveneno su champaña.”

Esta música trata da imigração, do perigo de cruzar a fronteira por um sonho de uma vida melhor, e interpreta muito mais da realidade latina. Assim como na letra de La Perla que, tomando tal bairro como ponto de partida, nos canta sobre as pessoas que vivem naquelas condições.

“Creo en los barrios con madres que dieron iguales razones y al final se murieron sin tener vacaciones. Como decía mi abuela: ‘Así fue la baraja en casa el pobre hasta el que es feto trabaja’ (…) Aquí no se perdona el tonto majadero, aquí de nada vale tu apellido, tu dinero. Se respecta al carácter de la gente con que andamo’. Nacimo’ de mucha’ madres, pero aquí solo hay hermano’.”

Portanto Calle 13, por sua estética mesclada e suas letras críticas, produz dentro da indústria cultural uma música que é parte da realidade vivida no território. E de alguma forma “cospem” essa música que tem sentido de transformação, envenenando seus patrões em pequenas doses.

Marina Rocha

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maio 2, 2010 - Posted by | La Poderosa II (Marina Rocha) | , , , ,

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